A Eterna Construção
-em defesa de uma certa tristeza-
Esta ilustração acima é de um desenhista que gosto muito, Gervasio Troche. Ele é meio uruguaio e meio argentino, o que já acho muito interessante. Seus “desenhos invisíveis” têm muito a dizer, e foi difícil escolher apenas um para colocar aqui. Acredito que este representa bem tudo que tentei expressar no texto que escrevi em 2020, durante a pandemia.
O texto nasceu de palavras e esboços aleatórias que encontrei no meu caderno de anotações. Eu usava esse caderno quando participei de um grupo de estudos sobre o livro Aprender da Experiência, de Wilfred R. Bion, nos anos de 2018 e 2019. O grupo acontecia na casa do professor e psicanalista Dr. Emir Tomazelli, em São Paulo. As palavras me vinham à cabeça enquanto discutíamos a leitura e, um dia, resolvi elaborar um texto a partir delas. E aqui está!
Hoje fiz pequenos ajustes para tentar deixá-lo um pouco mais claro, mas confesso que ainda está bem confuso. Como dizia meu velho professor do curso de Bion, Dr. Antonio Rezende, velho literalmente, na época ele tinha 92 anos; hoje falecido, sua vivacidade e alegria em ensinar seguem vivas em mim. Ele dizia, assim como Clarice Lispector, para não nos preocuparmos em entender, pois “algo sempre fica e vai fazendo eco dentro da gente”.
Então, boa leitura deste texto “maluquinho” e cheio de ideias bionianas!
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A Eterna Construção -em defesa de uma certa tristeza-
A vida é uma construção eterna. Você pega um tijolo -tijolo por tijolo- e nunca mais para. É a experiência de ser, de vir a ser, de ser quem se é, numa busca incessante por si mesmo. Mas onde se quer chegar? Talvez às estrelas que moram dentro de você.
É preciso criar caminhos que não são precisos, como ondas no mar ou um sonhar acordado constante, tudo junto numa ensonhação. É necessário garimpar, pesquisar, estudar, investigar esse complexo sofrer que é a vida, com suor, sangue e lágrima. E também, porque não, com alegria e uma boa dose de bom- humor?
Quantos pecados preciso cometer para alcançar a sabedoria? É preciso aprender a lutar, a re-existir, usando o passado como lição para meditar e não repetir. É um processo de lidar, amadurecer e crescer -longe de anestesiar- para conseguir simbolizar os impactos da vida. É uma ressonância necessária para poder caminhar e, quem sabe, nascer em poesia. Ressignificar, uma palavrinha em alta, um clichê difícil de se alcançar na prática.
A desatenção é a primeira violência. É crucial zelar pelo frágil, lembrar que uma criança é uma pessoa e, acredite, tem alma. A vida é um banquete: não dá para digerir tudo de uma vez, é preciso tempo. É um processo. E a pergunta que fica é: qual a qualidade que dou à minha vida antes da morte? O sol nasce e morre todo dia, nos lembrando de nossa limitação, mas que é justamente isso que nos abre para o infinito. (que pode ser inferno, limbo, paraíso, tudo junto e misturado)
Precisamos de análise para abrir o jogo, para falar do que ninguém nos diz. Como lembraram Drummond e Valter Hugo Mãe, “Mundo mundo vasto mundo” e “Quem não sabe perdoar só sabe de coisas pequenas”. É sobre sentir sem ser masoquista, para expandir a mente. Sofrer é uma condição necessária para crescer.
É por isso que levanto a bandeira em defesa de uma certa tristeza. Vejo o sofrimento como um guardião da vida, onde a tolerância à dor é a capacidade de saber. Não saber o que se sente vira sintoma, um ponto de conforto no desconforto. E a tristeza, aqui, não é sobre se apequenar, mas sobre ampliar. A capacidade de estar só, mesmo em meio a tanta gente.
Como se dá forma ao pensamento? Separando para ter contato, não ficando numa amálgama. O mar somos nós. É saber amar com dor, apesar de tudo. É traduzir para se perceber, sabendo que aprender com a experiência requer um sistema digestivo. É lento, porém tem movimento.
A urgência de tapar o vazio cega, impede de ver o outro. Sem tolerância, não há crescimento. Vamos com calma. Aceitar o pensamento alheio. O mundo não vai desabar. (tempo, tempo, tempo, tempo)
Há um ódio ao pensamento, pois pensar é entrar em contato com a realidade. Cuidado com o mundo pequeno. O invisível é sempre pior do que o monstro revelado, quando se vê, já não assusta tanto.
E depois do medo da catástrofe, um aumento de possibilidades sempre surge. Verdades absolutas limitam. É preciso aguentar a escuridão, enxergando pelo facho de luz que surge. Se algo me ocorrer... esperar. É um mantra: observação sem interferência, aceitar a perturbação sem agir imediatamente, abrir espaço para que algo novo venha.
É no silêncio que as coisas mais profundas acontecem. Por que não uma livraria, então? O ódio aos pensadores existe porque pensar abala o status quo e os lobos não querem ser confrontados.
Texto: Thais Laham Morello/2020
Termino essa newsletter com dois poemas aleatórios e três músicas que passaram pela minha cabeça enquanto finalizava a leitura, vou deixar os nomes aqui pra vocês!
Cântico Negro, de José Régio
Poema em linha reta, de Fernando pessoa
Musicas:
Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil
Preciso aprender a só ser, de Gilberto Gil
Oração ao tempo, de Caetano Veloso
Obrigada por me ler!
Thais



